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terça-feira, janeiro 19, 2010
Poemas de Eugenio de Andrade

Conheci Eugenio no Porto em 1981, levou ao pé da varanda com um cálice do vinho do porto e recitou-me um poema, ficamos horas a conversar, foi um grande dia e inesquecível.Paulo Vasconcelos
BIOGRAFIA....... Poeta português, nasceu em 19 de Janeiro de 1923 em Póvoa de Atalaia, Fundão, no seio de uma família de camponeses. A sua infância foi passada com a mãe, na sua aldeia natal. Mais tarde, prosseguindo os estudos, foi para Castelo Branco, Lisboa e Coimbra, onde residiu entre 1939 e 1945. Em 1947 entrou para a Inspecção Administrativa dos Serviços Médico-Sociais, em Lisboa. Em 1950 foi transferido para o Porto, onde fixou residência.
Abandonou a ideia de um curso de Filosofia para se dedicar à poesia e à escrita, actividades pelas quais demonstrou desde cedo profundo interesse, a partir da descoberta de trabalhos de Guerra Junqueiro e António Botto. Camilo Pessanha constituiu outra forte influência do jovem poeta Eugénio de Andrade.
Embora não se integre em nenhum dos movimentos literários que lhe são contemporâneos, não os ignorou, mostrando-se solidário com as suas propostas teóricas e colaborando nas revistas a eles ligadas, como Cadernos de Poesia; Vértice; Seara Nova; Sísifo; Gazeta Musical e de Todas as Artes; Colóquio, Revista de Artes e Letras; O Tempo e o Modo e Cadernos de Literatura, entre outras.
A sua poesia caracteriza-se pela importância dada à palavra, quer no seu valor imagético, quer rítmico, sendo a musicalidade um dos aspectos mais marcantes da poética de Eugénio de Andrade, aproximando-a do lirismo primitivo da poesia galego-portuguesa ou, mais recentemente, do simbolismo de Camilo Pessanha.
O tema central da sua poesia é a figuração do Homem, não apenas do eu individual, integrado num colectivo, com o qual se harmoniza (terra, campo, natureza - lugar de encontro) ou luta (cidade - lugar de opressão, de conflito, de morte, contra os quais se levanta a escrita combativa).
A figuração do tempo é, assim, igualmente essencial na poesia de Eugénio de Andrade, em que os dois ciclos, o do tempo e o do Homem, são inseparáveis, como o comprova, por exemplo, o paralelismo entre as idades do homem e as estações do ano. A evocação da infância, em que é notória a presença da figura materna e a ligação com os elementos naturais, surge ligada a uma visão eufórica do tempo, sentido sempre, no entanto, retrospectivamente. A essa euforia contrapõe-se o sentimento doloroso provocado pelo envelhecimemto, pela consciência da aproximação da morte (assumido sobretudo a partir de Limiar dos Pássaros), contra o qual só o refúgio na reconstituição do passado feliz ou a assunção do envelhecimento, ou seja, a escrita, surge como superação possível. Ligada à adolescência e à idade madura, a sua poesia caracteriza-se pela presença dos temas do erotismo e da natureza, assumindo-se o autor como o «poeta do corpo». Os seus poemas, geralmente curtos, mas de grande densidade, e aparentemente simples, privilegiam a evocação da energia física, material, a plenitude da vida e dos sentidos.
Foi galardoado com o Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, atribuído a O Outro Nome da Terra (1988), e com o Prémio de Poesia Jean Malrieu, por Branco no Branco (1984). Recebeu ainda, em 1996, o Prémio Europeu de Poesia. Foi criada, no Porto, uma fundação com o seu nome.
Autor de uma importante obra poética, podem referir-se os seguintes títulos: Adolescente (1942); As Mãos e os Frutos (1948); Os Amantes sem Dinheiro (1950); As Palavras Interditas (1951); Até Amanhã (1956); Conhecimento da Poesia (1958); O Coração do Dia (1958); Os Afluentes do Silêncio (1968); Obscuro Domínio (1971); Limiar dos Pássaros (1972); Véspera da Água (1973); Memória de Outro Rio (1978); Matéria Solar (1980); O Peso da Sombra (1982); Poesia e Prosa, 1940-1989 (1990), O Sal da Língua (1995), Alentejo (1998), Os Lugares do Lume (1998) e Antologia Pessoal de Poesia Portuguesa (1999). Organizou ainda, várias antologias, como a que dedicou ao Porto (Daqui Houve Nome Portugal, 1968) e a Antologia Breve (1972). Em 2000, publica Poesia. Escreveu também livros para crianças. É um dos poetas portugueses mais traduzidos para outras línguas.
Em 1982, o Governo português atribuiu-lhe o grau de Grande Oficial da Ordem de Sant'Iago da Espada e a Grã-Cruz da Ordem de Mérito em 1988. Em 1986, recebeu o Prémio da Associação Internacional dos Críticos Literários. Em 1996, recebeu o Prémio Europeu de Poesia da Comunidade de Varchatz (Jugoslávia).
Em 1999 organizou a obra Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa.
Em Maio de 2000, recebeu o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores, entregue pelo Presidente da República. O prémio distingue todo o percurso e toda a obra do escritor. Também recebeu, no mesmo ano, o Prémio Extremadura de criação literária e o Prémio Celso Emilio Ferreiro, para autores ibéricos.
Em Fevereiro de 2001, Eugénio de Andrade recebeu o Prémio Celso Emilio Ferreiro, na Galiza. Em Maio, Eugénio de Andrade foi homenageado no Carrefour des Littératures, em França.Em Julho, foi atribuído ao poeta o Prémio Camões, que se mostrou satisfeito, quer pelo prestígio do galardão, quer por ver o seu nome associado ao de Luís de Camões.
No mesmo ano publicou Os Sulcos da Sede
Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.
No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.
Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.
Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.
É na escura folhagem do sono
que brilha
a pele molhada,
a difícil floração da língua.
Música, levai-me:
Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?
Procura a maravilha.
Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.
No brilho redondo
e jovem dos joelhos.
Na noite inclinada
de melancolia.
Procura.
Procura a maravilha.
A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo
cintila,
a boca espera
(que pode uma boca
esperar
senão outra boca?)
espera o ardor
do vento
para ser ave,
e cantar.
Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser -
se a luz é tanta,
como se pode morrer?
Sê tu a palavra
1.
Sê tu a palavra,
branca rosa brava.
2.
Só o desejo é matinal.
3.
Poupar o coração
é permitir à morte
coroar-se de alegria.
4.
Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.
5.
Beber-te a sede e partir
- eu sou de tão longe.
6.
Da chama à espada
o caminho é solitário.
7.
Que me quereis,
se me não dais
o que é tão meu?
Colhe todo o oiro
Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia.
Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.
Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude.
Nunca o verão se demorara
assim nos lábios
e na água
- como podíamos morrer,
tão próximos
e nus e inocentes?
Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um
- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum
De palavra em palavra
a noite sobe
aos ramos mais altos
e canta
o êxtase do dia.
Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei ás romãs a cor do lume.
Húmido de beijos e de lágrimas,
ardor da terra com sabor a mar,
o teu corpo perdia-se no meu.
(Vontade de ser barco ou de cantar.)
Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.
Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.
À breve, azul cantilena
dos teus olhos quando anoitecem.
Eram de longe.
Do mar traziam
o que é do mar: doçura
e ardor nos olhos fatigados.
A raiz do linho
foi meu alimento,
foi o meu tormento.
Mas então cantava.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos.
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.
Era no tempo em que os meus olhos
eram os tais peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade:
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus
quinta-feira, novembro 19, 2009

http://www.poetasdelmundo.com/verInfo_europa.asp?ID=645
Teresa
Tudela
”Voz de Mulher à Ameaça da Guerra”
[Poema alusivo ao início da guerra no Iraque]
Homem
algures
no ovo de impulsos ocultos
enredado em linhas matriciais
as mais dilectas
um grito implodido
em sim à morte
agora a guerra
cego
descarnas o dia sem razão
ensaiando as vestes
de um futuro
virtual
assente em togas longas de veludo
poder falso
oco
inchando prenhe desligado do chão
amplo negro o do futuro
esvoaça
persistente sobre o vagido
de um berço tenro inhabitado
ou de mãos doces
homem
fica a rocha desnuda a água um lodo
onde deviam estar a terra os frutos
as fontes de vida cristais puros
impolutos
homem
senhor da vida
dono de trevas
quebrantos
dizem-te autos passados
aras
vozes limpas
escuta
do que se teme faz-se o luto
por se tomar de dentro e em seu lugar
plantar firme a fé e a tocha acesa
resoluta
em pé
levante
faça-se vida
adiante a guerra
agora a paz
mãe alma
agora a luz
que límpida por diante
amanhã se veja a estrada
e sem assombro a madrugada
Teresa Tudela,Fevereiro/2003
________________________

Pais agem]
o tempo urge favos e alfazema
baixam estorninhos rasos a terra
por sementes
e escorre a água límpida da lama
deixando nítidos olmeiros de pé
contra a centelha oblíqua da tarde
sei-me agora igual à mosca
dna contado a todos
brancos negros amarelos e a ela mas
amasso o trigo loiro entrementes
de laia e feição diversas
de pena na paisagem folha
branca tela espelho
cinco sentidos a discernir em vão
seiva e sangue e ar que me seja alheio
:
é assim certo que amo
e comigo é toda a voz da terra
:
quod sum causa tuae viae
e se bem sou a razão da tua viagem
a ti virá também toda a carne
abre-se o rubor dos lábios em corola
papoila oculta em asas de beija-flor
e quem vir
aposto
julga que me estranhamente assombro e rio
[Teresa Tudela, 2004]
biografia:
Teresa Tudela
Escritora e directora da Unidade de Cultura do Instituto Superior de Engenharia do Porto, Mestre em Língua, Cultura e Literatura Inglesa e especializada em Teoria da Comunicação. Desenvolveu trabalho nos domínios de ciências da educação, metodologias de projecto,
formação de professores, tecnologias educativas, software educacional, edição electrónica, teoria da comunicação, tecnologias de informação e comunicação, nomeadamente, cd rom's, páginas na Internet e web sites. É sócia fundadora do Instituto Verney para o Conhecimento e autora do site “Mulheres Portuguesas do Século XX”, online desde 2000, em: http://www.mulheres-ps20.ipp.pt.
No âmbito académico, tem publicado artigos e comunicações em livros de actas e em publicações periódicas especializadas e online, no domínio de Tecnologias Educativas, Women's Studies e Cultura. Últimas publicações: Tudela, T., 2004. Propostas de Leitura para Generation X - Algumas Implicações da Escrita/Comunicação Mediatizada por Computador, Porto: Politema; Tudela, T., 2005. “Intertexts, Cytexts, a Body Online”, In: Peter Collier ed., Identity and Cultural Translation: Writing across the Borders of Englishness. 1st ed. Oxford: Peter Lang, 247-259.
No âmbito literário, tem alguns títulos publicados, sendo o último, Sete Transmutações da Casa, Editora Ausência, 2002 e, no prelo, T. a Bernardim, Campo das Letras, 2006.
Participa em publicações colectivas, colaborativas e online [eg participação em O Fulgor da Língua - Coimbra, Capital da Cultura: co-autoria de O Estado do Mundo, Ed. Minerva, 2005], em tradução de poetas estrangeiros [Seminários da Casa de Mateus / Quetzal Editores], e em colectâneas e antologias temáticas, sendo as últimas: Na Liberdade, Antologia Poética, Garça Editores, 2004; Algarve todo o mar, Colectânea, Adozinda Providência Torgal e Madalena Torgal Ferreira Org.s, Dom Quixote, Lisboa, 2005; A Palavra Ardente, II Bienal de Poesia de Silves, 2005; Os Outros, Poesia Portuguesa da Década de 80, Ed. Ausência, 2005. No prelo, 'Herbarium, Blue Prints, 1980', Dematos Ed., 2006.http://www.poetasdelmundo.com/verInfo_europa.asp?ID=645
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Não fales nada, A palavra não diz, é louça quebrada, não mais espouca, Não gira,não recola 25.05.24 PAULO CAJA