terça-feira, abril 21, 2009
quarta-feira, abril 08, 2009
POETAR PARA O RUMOR DE SÃO PAULO

"Pelos ventos nativos, ruminantes,/ brincam pastores céleres de outrora./ Saltam leves, ligeiros, ou contemplam/ como quem doura o trigo e se abstrai".
O amigo, poeta Francisco de Assis Lima, deu-nos uma obra a mais e desta vez, surpreendente nos seus versos que caminham sobre planos dourados de plenitude, de imaginação e garra de guerreiro nordestino; pastor de belezas e de comtemplações que só quem tem rebanho de beleza poética e olho que cheira e admira, pastora e "abstraindo" as paisagens verte belezas.Tá lá no livro, leiam e embelezem-se.
Paulo A C Vasconcelos
Paulo A C Vasconcelos
A Revista Rascunho do Paraná, especializada e respeitada no campo da Literaturra entendeu bem o recado de Francisco:
http://rascunho.rpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=25&lista=0&subsecao=0&ordem=2849
Críticas e ResenhasDEDICAÇÃO E TRABALHOÁlvaro Alves de Faria • São Paulo – SPPoemas arcanosAssis LimaAteliê84 págs.Francisco Assis de Sousa Lima. Este é o nome de um poeta. Diante de tantas festividades e vaidades afloradas, diante de tanta gente que não é o que pensa ser, eis que surge um livro de poesia, de um poeta cearense. Francisco Assis de Sousa Lima. Este é seu nome. Um poeta. Psiquiatra e pesquisador em cultura popular. Nesta área publicou Conto popular e comunidade narrativa. O poeta reuniu poemas escritos ao longo de 30 anos. O resultado é resplandecente, e a expressão é essa mesma. Basta ver o livro Poemas arcanos, que ele assina apenas como Assis Lima. Assis Lima é o nome do poeta que, ao meio desses escombros, surge do Ceará, nascido em Crato. De vez em quando é bom ver um livro de poesia. E isso, em relação à literatura inclui, também, o caráter duvidoso de muitos que julgam ter a grandeza que nunca terão. Mas a poesia ainda existe. De alguma maneira, apesar de tudo, ainda existe poesia no Brasil. Ainda existem alguns poetas. Só alguns, mas existem. Prova disso é este livro. Lima abre seu livro com palavras de um autor anônimo, para melhor situar seu poema e o que pensa, afinal, da própria poesia e da existência, existência mesmo, sem discursos: "O mistério é protegido não pelo segredo, mas de outra maneira. A sua proteção é a sua luz, ao passo que a proteção do segredo é a obscuridade. Quanto ao arcano, que é o grau médio entre o mistério e o segredo, é protegido pela penumbra. Porque ele se revela e se oculta por meio do simbolismo. O simbolismo é a penumbra dos arcanos". A verdade é que a poesia de Assis Lima se impõe por uma qualidade cada vez mais difícil neste país de gente que se diz poeta e faz da poesia um cartão de visita para expor a vaidade dos imbecis. Assis Lima sabe que não é assim. A poesia é a poesia, ela mesma, sem mais nem menos. O poema se constrói com dedicação e trabalho, exercício existencial e não mecânico e com o alarde dos que se julgam sábios: "Minhas certezas são poucas,/ são pulsações que nem peço./ Trago uma herança de medo/ e a dor de um banzo tão velho/ que já não posso, nem quero,/ suportar tamanho peso". O poeta fala da sua dor de ser, quando ser parece impossível. As pessoas que andam procurando boa poesia para ler devem sair em busca deste livro. Um livro que se impõe pela beleza. Um livro de poesia que se impõe só pela poesia, sem aquela movimentação ridícula da política literária, que manda e desmanda, faz e acontece. Não. Assis Lima apenas mostra sua poesia, uma poesia que é poesia. Como estes quatro versos, início de um soneto. É, um soneto!: "Pelos ventos nativos, ruminantes,/ brincam pastores céleres de outrora./ Saltam leves, ligeiros, ou contemplam/ como quem doura o trigo e se abstrai". Destaque-se, especialmente, os seis poemas que compõem a parte Temas para Lua Cambará: "O tempo me ensinou a ruminar./ Eu rumino o bredo dos séculos que comi". Poemas arcanos é um livro de poemas e de poesia. Sem discursos inócuos. Isso é o que mais se vê, especialmente em causa própria. Neste livro de poesia, o poeta narra o que vê e se envolve, até porque poesia sem envolvimento não é poesia. É outra coisa que nem convém dizer.
http://rascunho.rpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=25&lista=0&subsecao=0&ordem=2849
Críticas e ResenhasDEDICAÇÃO E TRABALHOÁlvaro Alves de Faria • São Paulo – SPPoemas arcanosAssis LimaAteliê84 págs.Francisco Assis de Sousa Lima. Este é o nome de um poeta. Diante de tantas festividades e vaidades afloradas, diante de tanta gente que não é o que pensa ser, eis que surge um livro de poesia, de um poeta cearense. Francisco Assis de Sousa Lima. Este é seu nome. Um poeta. Psiquiatra e pesquisador em cultura popular. Nesta área publicou Conto popular e comunidade narrativa. O poeta reuniu poemas escritos ao longo de 30 anos. O resultado é resplandecente, e a expressão é essa mesma. Basta ver o livro Poemas arcanos, que ele assina apenas como Assis Lima. Assis Lima é o nome do poeta que, ao meio desses escombros, surge do Ceará, nascido em Crato. De vez em quando é bom ver um livro de poesia. E isso, em relação à literatura inclui, também, o caráter duvidoso de muitos que julgam ter a grandeza que nunca terão. Mas a poesia ainda existe. De alguma maneira, apesar de tudo, ainda existe poesia no Brasil. Ainda existem alguns poetas. Só alguns, mas existem. Prova disso é este livro. Lima abre seu livro com palavras de um autor anônimo, para melhor situar seu poema e o que pensa, afinal, da própria poesia e da existência, existência mesmo, sem discursos: "O mistério é protegido não pelo segredo, mas de outra maneira. A sua proteção é a sua luz, ao passo que a proteção do segredo é a obscuridade. Quanto ao arcano, que é o grau médio entre o mistério e o segredo, é protegido pela penumbra. Porque ele se revela e se oculta por meio do simbolismo. O simbolismo é a penumbra dos arcanos". A verdade é que a poesia de Assis Lima se impõe por uma qualidade cada vez mais difícil neste país de gente que se diz poeta e faz da poesia um cartão de visita para expor a vaidade dos imbecis. Assis Lima sabe que não é assim. A poesia é a poesia, ela mesma, sem mais nem menos. O poema se constrói com dedicação e trabalho, exercício existencial e não mecânico e com o alarde dos que se julgam sábios: "Minhas certezas são poucas,/ são pulsações que nem peço./ Trago uma herança de medo/ e a dor de um banzo tão velho/ que já não posso, nem quero,/ suportar tamanho peso". O poeta fala da sua dor de ser, quando ser parece impossível. As pessoas que andam procurando boa poesia para ler devem sair em busca deste livro. Um livro que se impõe pela beleza. Um livro de poesia que se impõe só pela poesia, sem aquela movimentação ridícula da política literária, que manda e desmanda, faz e acontece. Não. Assis Lima apenas mostra sua poesia, uma poesia que é poesia. Como estes quatro versos, início de um soneto. É, um soneto!: "Pelos ventos nativos, ruminantes,/ brincam pastores céleres de outrora./ Saltam leves, ligeiros, ou contemplam/ como quem doura o trigo e se abstrai". Destaque-se, especialmente, os seis poemas que compõem a parte Temas para Lua Cambará: "O tempo me ensinou a ruminar./ Eu rumino o bredo dos séculos que comi". Poemas arcanos é um livro de poemas e de poesia. Sem discursos inócuos. Isso é o que mais se vê, especialmente em causa própria. Neste livro de poesia, o poeta narra o que vê e se envolve, até porque poesia sem envolvimento não é poesia. É outra coisa que nem convém dizer.
sexta-feira, agosto 01, 2008
MORRE UMA GRANDE POETISA BRASILEIRA

Na última quarta-feira, faleceu, na cidade do Recife, a escritora Maria do Carmo Barreto Campello de Melo.
Vítima de um AVC hemorrágico, estava internada desde o último dia 14 e havia completado 84 anos recentemente.
Maria do Carmo, ou simplesmente Carminha, como costumava ser tratada, nasceu no Recife em 21 de julho de 1924. Foi escritora, jornalista, formou-se em Letras, ocupou cargos ligados à educação e à cultura, foi membro de instituições literárias, entre elas a Academia Pernambucana de Letras - APL, a Academia de Artes e Letras do Nordeste, da qual era acadêmica emérita, e a União Brasileira de Escritores - UBE-PE.
Publicou doze livros de poesia: Música do Silêncio - 1º Momento: Os Símbolos; 2º Momento: Os Sobreviventes (1968); Música do Silêncio - 3º Momento: Ciclo da Solidão (1971);
Música do Silêncio - 4º Momento: O Tempo Reinventado (1972);
VerdeVida: O Tempo Simultâneo; Música do Silêncio - 5º Momento: As Circunstâncias (1976); Ser em Trânsito (1979); Miradouro (1982);
Partitura Sem Som (1983); De Adeus e Borboletas (1985); Retrato Abstrato (1990); Solidão Compartilhada (1994); Visitação da Vida (2000); e A Consoada (2003).
Carminha desenhou um rastro indelével de palavras por onde circulou. Nela, a poetisa e a mulher estavam inextrincavelmente misturadas. Teve uma dedicação praticamente integral à literatura e à vida cultural.
Participava de quase tudo que acontecia nos meios literários do Recife. Eram palestras, lançamentos de livros, encontros, congressos, comissões de prêmios literários. Quando o fazia, não atuava de forma acomodada, que o tempo e o prestígio poderiam lhe proporcionar. Tinha sempre um papel verdadeiramente ativo. Nunca se colocou em posição destacada que a afastasse do labor e do prazer do contato com as pessoas.
Recentemente, havia participado do Projeto Arte e Vida, como coordenadora de literatura. O objetivo da iniciativa era tirar crianças e adolescentes da convivência com a violência e o tráfico de drogas em favelas da cidade.
Como pessoa, era uma mulher serena e intensa. Como escritora, é uma das mais importantes da literatura contemporânea de Pernambuco. A família busca, agora, apoio para publicar suas obras completas, por meio do Funcultura, fundo estadual de cultura de Pernambuco.
Confiram o poema Lição de Amor, do livro Solidão Compartilhada. Para ler mais, clique aqui
NOTA: Conheci Carminha em 1995, quando coordenamos o I Congresso Nacional dos Escritores em Pernambuco, promovido pela União Brasileira de Escritores – Secção Pernambuco – UBE-PE, à época sob a presidência do Escritor Flávio Chaves.
O evento foi realizado no período de 15 a 17 de novembro e contou com palestras de Nélida Piñon, Ariano Suassuna, José Castelo, João Silvério Trevisan, Domingos Carvalho da Silva e Bruno Tolentino, entre outros.
Ela fez o prefácio de meu segundo livro, A Pulsação Repleta, lançado pela Fundarpe/Cepe. Lá estava, “poesia contida, despojada, limpa como o linho, sem excessos nem acessórios”.
Foram as palavras mais bonitas que eu já havia ouvido sobre a minha poesia.
tags: Recife PE literatura maria-do-carmo-barreto-campello-de-melo poeta poetisa poesia-brasileira poesia-contemporanea poesia-pernambucana poesia literatura-brasileira literatura-contemporanea poetas-brasileiros poetas-contemporaneos poetas-latinos falecimentos academia-pernambucana-de-letras uniao-brasileira-de-escritores recife recife-pe pernambuco marcilio-medeiros
para lembrar
Maria do Carmo Barreto Campello de Melo
Lição de Amor
Não te direi de amor
assim como tu queres
pois não se faz o amor, amor existe
e permeia e transcende coração e mente
e dá se dando e dando inteiramente
que despojado é o amor, sem adereços
e a pele é a melhor das vestimentas.
Não te direi
assim como o entendes
mas se eu disser de mim, direi do amor
que há quem não se dando já deu tudo
e visitou a face do teu ser impuro
e adormeceu à sombra dos teus sonhos.
Não
assim como desejas
só que me entrego à noite e ao desespero
e ferida de amor digo teu nome
e ele me cobre como uma vestidura.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Joaquim Cardozo

educação joaquim cardozo
Poeta e engenheiro, Joaquim Cardozo é o novo personagem da série Os autores pernambucanos que caem no vestibular. Aqui, você tem um pouco da vida e da obra desse solitário escritor recifense que dedicou toda a existência a duas paixões: o cálculo matemático e, principalmente, a poesia.
Ele foi parceiro de Oscar Niemeyer em obras que revolucionaram a arquitetura brasileira, como o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Palácio dos Arcos (Itamaraty). Publicou seu primeiro livro aos 50 anos de idade e morreu sem ter o reconhecimento do grande público. Mas os críticos sempre o classificaram como um dos maiores poetas da língua portuguesa no século XX.
Interpretação da obra do poeta
"Numa primeira fase, Joaquim Cardozo parece aderir ao Modernismo nacionalista, cantando nos Poemas aspectos típicos da capital pernambucana. Numa segunda fase (Signo Estrelado), é Carlos Drummond de Andrade (Passeios na Ilha) a aproximá-lo do lirismo valéryano, racionalista, abstrato e de sábia arquitetura verbal e métrica.
Já em O Coronel de Macambira temos o poeta a explorar o rico e singelo filão folclórico do Nordeste, para satirizar a exploração do homem do campo pelos "coronéis" e proprietários rurais. Em qualquer das fases está a afirmação de um artista do verso, que impressiona sobretudo pelas metáforas, surpreendentes associações verbais (chão de cinza e fadigas; saudade pura/de abril, de sonho, de azul; aurora verde; rastro de luz macia), economia da expressão, sintaxe e ritmo cheios de sutileza e sugestividade.
Dicção despojada, sentido estrutural da construção poemática - matemática e vôo lírico, eis em poucas palavras a sua marca de escritor." (Celso Pedro Luft, in Dicionário de Literatura Portuguesa e Brasileira, Editora Globo, Porto Alegre, 1979)
Depoimentos
João Cabral de Melo Neto: "Joaquim Cardozo foi um dos maiores poetas que conheci. Sua obra é extraordinária, embora não tenha sido suficientemente estudada. Cardozo encontrou o verdadeiro estilo moderno no Brasil sem ser modernista."
Walmir Ayala: "Como poeta, Joaquim Cardozo é um sertanejo. Um mágico operístico quando desenrola as aventuras do Coronel de Macambira. Um lírico sempre, de ingênuas mãos expostas: A várzea tem cajazeiras.../Cada cajazeira um ninho/Que entre o verde e o azul oscila/Mocambo de passarinho..."
Carlos Drummond de Andrade: 'Se me perguntassem: o que distingue o grande poeta? Eu responderia: Ser capaz de fazer um poema inesquecível. O poema que adere à nossa vida de sentimento e de reflexão, tornando-se coisa nossa pelo uso. Para mim, Joaquim Cardozo, entre os muitos títulos de criador, se destaca por haver escrito o longo e sustentado poema A Nuvem Carolina que é uma das minhas companheiras silenciosas da vida."
Jorge Amado: "...Esse homem universal em sua cultura e em sua concepção de vida, interessado em todos os fenômenos da vida, apaixonando-se pelos mais diversos aspectos da existência e da cultura, espírito aberto a todas as experiências (...) Tão universal e tão nordestino ao mesmo tempo. Ou talvez porque tão nordestino, tão de seu campo de cana plantada, tão de seu sertão de seca e fome, de seu rio Capibaribe, de seu Recife de pontes e mocambos, talvez porque tão brasileiro, seja ele de humanismo tão universal (...)"
César Leal: "Muita gente fica admirada quando eu digo que Joaquim Cardozo é o maior poeta brasileiro do século XX. Não creio que seja apenas o mais completo poeta da língua, pois, ao publicar o livro Trivium, em 1970, ele atinge a transcendência, deixando de ser um representante da poesia da língua portuguesa, para situar-se num plano universal: o plano da língua poética pura, uma língua geradora de símbolos e imagens e que não tem um interesse meramente comunicativo."
Perfil/Bibliografia
Poeta, engenheiro, Joaquim Maria Moreira Cardozo nasceu no Recife, a 26 de janeiro de 1897, filho de um modesto guarda-livros. Na juventude participou das noitadas boemias recifenses, com figuras como o poeta Ascenso Ferreira e outros. Em 1934, foi um dos primeiros engenheiros calculistas da estrada Rio-Petrópolis.
Em 1939, após um giro pela Europa, volta para o Recife; entra em atrito com o então interventor federal em Pernambuco, Agamenon Magalhães, e muda-se para o Rio de Janeiro, onde passa integrar o grupo formado pelos intelectuais Manuel Bandeiras, Pedro Nava, Augusto Meyer, Lúcio Costa e outros.
Durante muitos anos, viveu entre as duas cidades: Rio e Recife. Entrou na literatura por influência de um irmão, que era poeta parnasiano. Publicou, em 1914, charges no Diário de Pernambuco. Seu primeiro poema modernista foi publicado pela imprensa em 1934.
O primeiro livro ("Poemas") foi editado em 1947, quando o poeta completava 50 anos de idade. Depois, vieram os outros livros: "Pequena Antologia Pernambucana" (1948); "Prelúdio e Elegia de Uma Despedida" (1952); "Signo Estrelado" (1960); "O Coronel Macambira" (1963) ; "Trivium" (1964); "Coletânea de Teatro Moderno" (O Capataz de Salema, Antônio Conselheiro e Marechal Boi de Carros, 1965); "De uma Noite de Festa" (1971); "Poesias Completas" (1971); "Os Anjos e os Demônios de Deus" (1973); "O Interior da Matéria" (1976).
Como engenheiro, integrou a equipe de Oscar Niemeyer na construção de Brasília, tendo feito os cálculos das estruturas dos palácios do Planalto e Alvorada e do prédio co Congresso Nacional. Morreu no Recife, a 04 de novembro de 1978. Publicações póstumas: "Um Livro Aceso e Nove Canções Sombrias", Editora Civilização Brasileira/Fundarpe, 1981; "Poemas Selecionados" (1997, organizado por César Leal).
Alguns poemas
Soneto somente
Nasci na várzea do Capibaribe
De terra escura, de macio turvo,
De luz dourada no horizonte curvo
E onde, a água doce, o massapé proíbe
Sua presença para mim se exibe
No seu ar sereno que inda hoje absorvo,
E nas noites com negridão de corvo,
Antes que ao porto do céu arribe
A lua assim só tenho essa planície...
Pois tudo quanto fiz foi superfície
De inúteis coisas vãs, humanamente.
De glórias e de alturas e de universos
Não tenho o que dizer nestes meus versos:
- Nessa várzea nasci, nasci somente.
Nesse mar
Por degrau de arenito e de coral
Do Recife se desce para o mar,
Para a noite do mar.
Onde ficam as minas agata?
As jazidas maiores de calcedônia?
Onde se estão diluindo nessas águas,
Nesse mar. Nesse mar,
Um céu com arco-íris e ocasos, um céu?
Caiu nesse mar.
Luzia, acende a lâmpada da sala
Luzia, acende a lâmpada da sala
E espreita as sombras inimigas no
corredor deserto
Onde as aranhas sábias construíram
estruturas levíssimas.
Vem depois assistir às horas do meu sono,
Debruça-te sobre o meu corpo
E olha para o meu rosto:
Verás, então, de mim, o que é Recôndito;
Verás, em mim o que é de Tudo;
Verás também passar a tua imagem,
Banhada e refletida,
Nas águas e na luz da minha vida.
Trecho do poema Trivium
Um piano emudece, as moças param de dançar
Dois namorados se beijam e se despedem
junto à cerca do jardim
O trem noturno passa
Último trem subindo ao céu
As luzes do casario aos poucos se apagaram
Somente no alto de um sótão brilha uma lâmpada
E, através da janela, se vê um homem estudante
- Cabelos despenteados, caídos sobre a testa
Está lendo: estuda um teorema de geometria
O trem noturno passa
Opinião de Joaquim Cardozo
(Do livro "Caderno de Confissões Brasileiras", Geneton Moraes Neto, Recife-1983)
Sobre se a poesia deve ser mais de palavras ou de idéias: "A poesia deve ser de palavras e de idéias, pois as idéias se exprimem por palavras e estas, segundo Maurice Blondot, possuem quatro significantes, entre os quais o halo; daí se conclui que as palavras usadas na poesia não pertencem, em geral, a uma linguagem e, sim, a uma metalinguagem; nunca a forma rígida, gramatical, de uma linguagem e muito menos de uma Linguagem Formalizada de Godel".
Sobre se a poesia pode sobreviver sem o discurso poético: "Pode, evidentemente, apesar de sua sobrevivência ser mais real na poesia dramática - que está muito ligada à recitação; a sobrevivência da poesia de Racine, Shakespeare e etc. deve-se em grande parte a este fenômeno. Para se mostrar a importância da recitação na sobrevivência da poesia, basta lembrar que todos os livros chineses foram queimados por um imperador da dinastia Tsin, duzentos anos antes de Cristo; no entanto, a maior parte da literatura chinesa dessa época sobreviveu na memória e na voz cantada do povo".
Sobre a utilização de diferentes formas poéticas simultaneamente, por um só autor: "Acho que as formas poéticas podem coexistir; não há na poesia substituição de uma forma em outra forma. Isto fica bem explicado com o caso de Dionísio Ridroefo e de vários poetas brasileiros, como Waldemar Lopes, Odilo Costa Filho, onde a forma permanece -em geral, a do soneto- variando, entretanto, o conteúdo -que é de vanguarda".
Qual foi o poema, entre os que escreveu, que apresentou um maior grau de realização: "Das minhas obras poéticas, a que concentrou maior grau de realização foi "Trivium" - Três Caminhos. A primeira parte deste poema -"Prelúdio e Elegia de uma Despedida"- figurou na coleção "Hipocampo", dirigida por Thiago de Melo e Geir Campos -edição em pequena tiragem de cem exemplares.
A parte que mais me empregou na sua execução foi, porém, "Visão do Último Trem Subindo ao Céu" - que é o caminho para um céu sonhado. Levei mais de três anos para termina-la; procurei usar recursos poéticos associados a um conhecimento universal - que vai desde o espaço de Minkoreski até o de Finsler; da teoria da relatividade restrita até a possibilidade de usar o espaço de Finsler na investigação das equações do campo unitário.
Pensei que somente viajando nesses espaços se poderia chegar ao céu do Acontecimento Branco, isto é, de qualquer acontecimento. Nesta parte do "Trivium", procurei me aproximar das idéias mais modernas do grupo de Althusser; sobretudo dos romances modernos de Badeou".
Sobre a experiência como engenheiro calculista e o ofício de poeta: "Como engenheiro calculista descobri a poesia da arquitetura moderna de Le Corbusier, Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e outros; grande parte dessa experiência está contida no poema "Arquitetura Nascente e Permanente". Nesta poesia arquitetônica, estará talvez o gérmen da poesia absoluta de Blummer".
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