sábado, abril 06, 2019

EXTEMPORÂNEO - UM POETA FIRME- DELALVES COSTA









Delalves Costa- arquivo do autor *













...
Suicida-se o poeta de asas na bunda, 
datilografa a puta, suja de encanto. 
Seus olhos de vinho 
derramados no anjo 
que cegos não falam 
a língua dos fatos... 





Entendo como poesia, entre outras tantas concepções, o sonho, o delírio do poeta, um desejo da condição de fricção por estar e ser; é isto com todo humano, marcar-se, e nisto flagra-se o dentro e o fora.

Acomodo a poesia como uma espécie de dizedura que não traduz o mundo, o homem, mas dessufoca e cria um real inatingível, mas que amolece com o que dizemos, o que se diz real. Desatamano-nos ou seu contrário, a língua na criação, e nos humanizamos. A palavra é afeto e o poema a busca do conatus, como diria Spinoza.

A poesia é o desejo de poder traduzir o intraduzível, e nisto a linguagem cumpre um papel de expansão como um bom inchaço. A palavra engorda, ou se enverga mais magra, todavia amplia-se para o querer ser e dizer.

Delalves Costa -Osório, RS/1981. É um poeta gaúcho que já tem uma língua e palavra esperta nas suas obras já postas. Seu novo livro “Extemporâneo” (Ed Coralina, 2019) tece nova trama em que alterna-se seu rugido de poeta na busca de seu estilo. A poesia é isto: busca nada, é definitivo.

Costa tem músculos fortes, mas por vezes duvida, como assim sempre é com quem escreve, digo isto ao perceber a sua ruptura do dito real, ora com, ora sem sombras de outros poetas, e aí surge sua criação qual estampido novo.

Os relógios suam, 
fedem à poeira. 
Desperto, homem sono em claro. 

Em sendo delirante, enquanto poeta, ele usa das ferramentas que tem – o vocábulo e suas devidas ubicações e revolteios lexicais.


O ritmo na soleira do poema 
me inventa... 
A formiga bebe a goteira 
na ranhura, 
arrasta o rio 
pelo silêncio, 
acorda a página e me define. 

Reafirmo, redigo: Delalves sabe de sua indecisão e ao dizê-la faz a sua assunção de poeta com vigor, sem precisar de sombras de árvores falantes já comidas e digeridas como entre outros: Drummond.



Inconcluso – o Homendereço 

No impulso onde se oculta à razão, 
os meus con(fusos disfarces). Me sinto estranho 
a conceitos que outrora repudiava. 
Parte do intelectual está homendereço. Se penso 
se não obedeço ou então me afasto 
dos vultos é meu dilema! Pra cada 
instante uma evidência: indecisão me consome. 
Aliás – vegeto morto-sobrevivente 
ou pertenço ao futuro? Do relógio o pior veneno: 
adoeço no ventre (na mente), de lógica e de caos 


E ele vai e vai... e se fortalece ao trapezear no verso e nisto sua musculatura amalgamada de coragem ao sustentar sua palavra ensalivada o faz pegar o outro lado do trapézio poemático.


O Invento 

O ritmo na soleira do poema 
me inventa... 
A formiga bebe a goteira 
na ranhura, 
arrasta o rio 
pelo silêncio, 
acorda a página e me define. ...

Ao adensar sua coragem vocabular e seu desenredo com não tessituras já consagradas ele pulula forte e mostra o novo com o aço no fogo poemático. Dito de outro modo, o poeta nas rupturas, nos seus buracos escondidos, despeja-se forte.

Seu relógio sem ponteiros é mais exato, creia! Tu sabes apalavrar em suavidade, não temas!

Digo sem temor: há um poeta em curso que merece ser lido e viajado em seus alcances múltiplos.





* Delalves Costa (13 de dezembro, 1981 – Osório-RS) é poeta e escritor com participação em coletâneas e 7 livros de poesia publicados, os mais recentes “Inacabamento, a eterna gestação” (2016, Pragmatta) e “O Apanhador de Estrelas” (Class, 2018). Membro e sócio-fundador da Academia dos Escritores do Litoral Norte (AELN/RS).

quarta-feira, março 06, 2019

A CIDADE: UM POEMA QUE EVOCA A TERRA EM VOLUMES SIMPLES-MAILSON F. VIANA PRÊMIO JABUTI







...
da cidade
eu não lembro

são duas a cada ano
uma verde
outra cinza
um livro de poemas
que dia é
noutro não é

da cidade
eu não lembro
é uma fotografia
que nunca é a mesma
uma hoje
outra amanhã eu fui
noutra década




Um homem brasileiro, nordestino – do interior –, mesmo em pleno século XXI, está entre os melhores poetas do brasil, segundo o prêmio Jabuti 2018 com a obra A Cidade – 2017, Ed. Independente. Destaco isto, origem do autor como do Nordeste, pois está segredado nas tramas das corporações livreiras e editoriais um certo preconceito contra os nordestinos, salvo aqueles que dão lucro, muito lucro, ou já possuem nome ou usam estratégias para fazê-los.

Mailson Furtado Viana, 27 anos, odontologista, nascido em Varjota, cidade do Ceará, mesorregião cearense. Vindo de família simples, classe média, foi reconhecido como o melhor poeta na edição do Prêmio Jabuti. Outras obras já estavam em circulação, como Sortimento (2012), Conto a Conto (2013) e Versos Pingados (2014).

Em mais de cinquenta anos, senão mais, o Jabuti não concedeu prêmios a publicação de autores independentes. O poeta de A Cidade escreveu, diagramou, ilustrou – da capa ao miolo, diga-se muito bem, simples e rica, sem maiores arabescos inúteis. Boa colaboração de Renancio C. Monte nas ilustrações ou tratativas.

O livro A Cidade é um único poema dividido em 4 partes  presente, pretérito, pretérito mais que perfeito, com notas do próprio autor, tipo um apêndice e mais um posfácio, A cidade pelo arquivo dos pé  aliás, título excelente por Dercio Braúna.

Em que pese sua formação na área da saúde o poeta sempre subiu nos galhos das árvores da poesia e sussurrou seu cantar qual ave assovieira que pulula para sentir novo acordes do vento e dizê-los também.

A Cidade é um grande poema, pela simplicidade e complexidade ao atingir o cenário do que chamo de “simples”, seus objetos, fatos de uma cidade, especificadamente do interior do Brasil, mas que tem seus intestinos iguais a muitas outras.

Não sei o porquê, seu poema me relembra a estrutura deslocadora de o Cão sem Plumas de João Cabral de Melo Neto, e só isto. Do mesmo modo, a catação de fonemas e estruturas de Zelins do Rego ou as peraltices de Manoel de Barros. Em nada o diminui, assim penso, ao inverso, fermenta-o. Quem ler se mela no que ler e exerce suas estruturas, nada mais rico!

Os cheiros untados nos vocábulos escolhidos do poema esparramam-se, dando roupagem nova ao verso. Seu álibi, a cidade, é apenas invólucro para uma antropologia densa, poética. O Homem é sua voltagem maior, sua caneca de matar sede.

eu me invado/em pitadas de saudades/do jardim de infância na tia cleide/do passeio domingo à tarde nas estradas do sombrio/do banho na beira do rio depois da aula/da escalada na barragem paulo sarasate/das traquinagens no quintal do vizinho/do roubo de tamarindos no caminho de casa/....
eu me invado/dentro de mim/a cidade me invade...

O poeta desliza por entre protocolos lexicais simples que radiografam o Brasil e por vezes o sintetiza como numa fotografia, ou o congela em poucos linhas e palavras construindo monumentos fatais, como assim:

eu me invado
dentro de mim
a cidade me invade

quando criança
minha cabeça barulhava
em não entender meu sangue
em não entender por que não tinha parentes na beira da esquina como metade da sala tinha

donde eu era

donde eu vinha (pag 55)


Mailson Furtado é um nome que pula alto no universo da poesia contemporânea. Peço que não corra, mesmo diante do espocamento bom de sua obra. A poesia vem de veneta e trabalho dos ventos da cabeça e das visagens do delírio. 






segunda-feira, abril 23, 2018

CONVIDAMOS A TODOS-LANÇAMENTO -PODE SER QUE SEJA FAZER OUTRO MUNDO

CONVIDAMOS A TODOS-LANÇAMENTO:





ORG. ELTON LUIZ L.SOUZA.
UMA HOMENAGEM AO CENTENÁRIO DE. MANOEL DE BARROS.
DIA 24.04.2018 BLOOKS LIVRARIA/ ESPAÇO ITAÚ CINEMA
PRAIA DE BOTAFOGO, 316 RJ.A PARTIR DAS 19HS




domingo, agosto 13, 2017

A melodia às avessas de Samarone Lima Rev Brasileiros



De Crato a Recife, conheça o poeta da memória e da música silenciosa



Todo poema tem a missão de provocar no leitor algo que o incomode, que o faça se perder (…). Como diz Juarroz:
‘A poesia é o maior realismo possível’. Ela salta o nome das coisas, para nomeá-las de outra maneira. Desnorteia. Puxa o tapete”
Samarone Lima é um cavalheiro, jovem-antigo, pesca fatos como jornalista e embrulha palavras com sua poesia. Seu lirismo se debruça sobre os mais diversos acontecimentos e os transforma em versos, embebidos de uma política do subjetivo sobre a qual alisa sílabas, dá contorno à palavra e consistência ao poético.
O professor e crítico literário Lourival Holanda escreve no posfácio do primeiro livro de poesias de Samarone, o duplo A Praça Azul & Tempo de Vidro (Editora Paés, 2012): “Na agreste figura dele, a poesia surpreende como a floração de um mandacaru… O poema de Samarone vai na contramão do consensual e, porque um hino à memória, guarda o mel dos momentos mágicos num processo de retenção sem pressa… E assim o poeta reconstrói sua delicada geometria de esplendores…”.
Sama nasceu, em 1969, no Crato (CE), mas desde 1987 vive em Recife. Tem trabalhado em diferentes projetos literários, como os livros-reportagem  (1998) e Clamor (2003), que estão sendo adaptados para cinema, e os livros de crônicas Estuário (1995) e Trilogia das Cores (2013). Só recentemente passou a publicar sua obra poética. Seu livro mais recente é O Aquário Desenterrado (Editora Confraria do Vento, 2014). Samarone recebeu a Brasileiros em uma livraria em Recife, onde batemos o papo a seguir.

Brasileiros – Fazer poesia é um ato político?
Samarone Lima – A literatura é sempre um ato político. E, se for sutil, abre mais espaços em pensamentos fechados. A palavra sempre me abriu caminhos. Como sempre publiquei muito as crônicas no meu blog (estuario.com.br), a quantidade de leitores era enorme. Fui publicando os poemas de forma quase clandestina em outro blog (quemerospoemas.blogspot.com). Era um problema existencial. De um lado, eu não queria muito mostrar os poemas. De outro, me lamentava ser conhecido apenas como cronista, jornalista. O fato de um leitor ter me encontrado e instigado a mostrar a poesia foi determinante. Devo isso ao amigo Arsênio Meira Jr., grande amante e conhecedor de poesia.
Brasileiros – Um de seus temas é a solidão na infância, a adolescência, as…
S.L. – … As muitas coisas. A solidão da infância, as dezenas de casas onde vivi, do Crato, no Ceará, passando pelo Maranhão, depois Fortaleza, Recife, São Paulo. Tentei apenas decifrar meu mundo de forma poética. A poesia pode também ser memorialista, mas não tem uma linha reta como na prosa.

Brasileiros – Você tem um memorial poético bem exposto na sua poesia… mãe, primos, etc.
S.L. – No meu primeiro livro duplo, temos as duas vertentes. A Praça Azul traz poemas soltos, com aparições da memória. Em Tempo de Vidro, fiz uma espécie de ritual da memória, indo aos antepassados, passando por mim, chegando novamente aos velhos. Em O Aquário Desenterrado, deixei que tudo viesse da forma mais pura, aberta. Cito nomes de tios, falo dos primos, do meu pai, dos irmãos. Me senti muito bem acompanhado. Nós e nossas dores, alegrias, fracassos, como uma grande constelação.

Brasileiros – O poeta tem o que se chama inspiração ou essa é uma palavra oca?
S.L. – Acredito que tenho, sim, dias mais inspirados. A escrita sai quase de uma fonte cristalina, basta se agachar, juntar as mãos e beber dela. Mas há dias duros, de luta mesmo, de frio, cansaço, solidão. Neste caso, recorro aos diários. Tenho dezenas de cadernos, que sempre me trazem alguma surpresa, uma frase, um tema. Cadernos velhos são meus fertilizantes.

Brasileiros – Quais autores brasileiros são para você um ponto de partida ou de chegada?
S.L. – Sendo meio óbvio, Murilo Mendes e Jorge de Lima. Mas tenho minha ramificação poética com outras fronteiras. Roberto Juarroz e Juan Gelman (argentinos), T.S. Eliot (norte-americano/inglês) e o abismo que é o Vicente Huidobro (chileno).

Brasileiros – Você tem uma relação mística, sagrada, com o exercício da poesia?
S.L. – Sim, creio, porque a palavra, em sua raiz original, tem o sagrado e o dom. Eu realmente trato a poesia como algo sagrado. O dom é outro aspecto, que tem o mistério rondando. Nunca sei de onde um poema vem, nem para onde vai. Tento esse exercício da poesia com as coisas cotidianas, os sobressaltos, impasses, desenganos, frustrações. Não é por acaso que meus parentes são personagens de vários poemas, eu mesmo apareço e me deixo desnudar. Vou construindo uma poesia que sirva para dar conta da minha vida, mas tentando ir sempre ao encontro do leitor.

Brasileiros – E qual seria uma definição de poesia para você?
S.L. – Poesia, para mim, é o descolamento silencioso, rastejante da palavra em relação ao objeto contemplado. Um descolamento da palavra de seu significado habitual. Eu busco essa renúncia. Não apenas para sentir-me completo, mas também para conservar a tradição milenar de entender a poesia como uma espécie de música quase silenciosa. Uma melodia às avessas. Como diz um poeta que me é caro, o argentino Roberto Juarroz, a poesia é um “visionária e arriscada tentativa” de levar o homem ao espaço do impossível, que às vezes se parece também com o espaço do indizível. É meu testemunho, minha obsessão. De novo Juarroz: “Uma peregrinação de meu destino através da linguagem”.

Brasileiros – Você vê seus versos pelo buraco da fechadura, como diria Nelson Rodrigues?
S.L. – Meus versos não são próprios (exceto um ou outro) para serem lidos em voz alta (não cabem na “declamação” porque isso guarda um elemento teatral). Há algo de contido, até porque tinha uma timidez assombrosa em mostrá-los. Quem me salvou do anonimato poético foi o amigo Arsênio Meira Jr., que fez uma seleção do primeiro lote que publiquei silenciosamente na internet (quemerospoemas.blogspot.co). É um despojamento, um desnudamento. Já tive oportunidade de fazer algumas raras leituras, mas prefiro em voz baixa, quase um sussurro, até porque me emociono quando vou ler. Essa emoção que me leva ao engasgo, é o que tento levar ao leitor. A poesia que me comove e que tento escrever se move pela completude amorosa, compreendendo, sobretudo, a memória e o exílio das minhas desarmonias, que são muitas.

Poema inédito
Manual de espera e solidão
Como no silêncio sem rastros
De um animal desvairado
Com seu cheiro difícil de esquecer
de tão próximo.

Ou como o espaço que lhe damos
Entre os ossos
Dessa ausência doentia
De tudo o que se quer.

Como se aquilo que se perde
Não virasse outro abismo –
O de ter sido.

E mesmo assim, se promulga a voz
Do absoluto desejo.

Tão imaculado, tão limpo, tão puro
Que sequer precisa de um nome
Para saber-se vivo.
Brasileiros – A relação entre prosa e poesia?
S.L. – Bem, enquanto a prosa tem um sentido lógico, definível, a poesia é alógica, evoca sentidos vários, não tem medida, exceto aquela que enxergamos. Talvez por isso os meus versos tenham demorado tanto a serem publicados. Eu desejava que eles tivessem a força de um filho há muito esperado, e que depois segue seu caminho. Eles ainda são muito duros, mas até a dureza tem algo de contido. A Praça Azul & Tempo de Vidro foi o livro possível, mas que resultou em uma espécie de alívio. Fiz minha inauguração. No final de 2013, veio O Aquário Desenterrado. Vi que estava com a alma mais livre, que podia dizer de forma mais intensa o que me era caro. As minhas contradições, memórias, minha vida feitas de tantas casas, tantas cidades, vivências. Um desaprumo que a poesia me possibilita refazer. Desejo apenas seguir nesta jornada pela poesia, sem nenhuma pressa.

Brasileiros – A busca pela completude amorosa é a qualquer preço?
S.L. – Não. Há condições. Logo no primeiro poema de O Tempo de Vidro, isso soa claro, como neste trecho: “Quando voltei/Aos seios de minha mãe/Morri de sede./Minha parte no mundo/Era destinada ao desconhecido/Que sempre fui”. Isso não é nem uma introdução de poema, isso é uma recomendação a mim mesmo. Lá, já nas origens, tudo se configurava. No meio do espanto, me vi escrevendo cada vez mais poesias, fazendo um diário de minha própria trajetória, tentando me reconhecer e me perdoar. Não sei se consegui, porque o perdão é uma tarefa para a vida inteira.
Todo poema tem a missão de provocar no leitor algo que o incomode, que o faça compreender, ou mesmo se perder, pois afinal de contas, perder-se também requer um roteiro, um caminho, um mapa necessário para subirmos novamente a montanha. Como diz Juarroz: “A poesia é o maior realismo possível”. Ela salta o nome das coisas, para nomeá-las de outra maneira. Desnorteia. Puxa o tapete, escancara o coração. Deve nos fazer pensar. Não lembro agora o autor de uma frase belíssima (não sei se foi o Jean Cocteau), que perguntou o seguinte: “– Se sua casa estivesse pegando fogo, o que você salvaria primeiro?”. Eis a resposta: “– O fogo”. Assim entendo e vivo a poesia. Uma urgência enlaçada pela afeição desesperada.

*Arsênio Meira de Vasconcellos Junior é bacharel em Direito, ocupa um cargo público e é um viciado em poesia e incentivador da poesia brasileira.

quinta-feira, agosto 03, 2017

PENSAMENTO ENQUANTO TEÇO UM PEQUENO TAPETE capturas do face..Micheliny Verunschk


Micheliny Verunschk

Há alguns anos falei sobre a obra dela, obra de arcada boa, densa, nordestina afoita e sem meio termo ela é uma jovem, mas gosta de ser senhora e mãe, brinca com os dois status, mas  vamos falar de poesia, sempre achei seus poemas muito bons, parece que agora ela acredita mais, capturei-os no face.....leiam...Paulo Vasconcelos



ENQUANTO TEÇO UM PEQUENO TAPETE
se os nomes das mulheres 
assassinadas
fossem lã
a lã que tece os tapetes
se o nome das mulheres
assassinadas fosse linha
a linha em torno dos dedos
ou na trama do tear
daríamos voltas e voltas
e voltas e voltas
movimento de rotação
nesse planeta triste para mulheres
voltas e voltas
voltas e voltas
um novelo imenso
muito maior que o planeta
com nossos nomes
com nossas lágrimas,
avó aranha.

                                                       imagem | 1906, Magdeline Whea-kadim, mulher do povo Tulalip, é                                                                                 fotografada enquanto tricotava

Micheliny Verunschk é autora dos romances O peso do coração de um homem (Patuá, 2017), Aqui, no coração do inferno (Patuá, 2016) e nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida (Patuá, 2014) – projeto com patrocínio da Petrobras Cultural. Também é autora dos livros Geografia Íntima do Deserto (Landy 2003), O Observador e o Nada (Edições Bagaço, 2003) e A Cartografia da Noite (Lumme Editor, 2010). Foi finalista, em 2004, ao prêmio Portugal Telecom como livro Geografia Íntima do Deserto. É doutora em Comunicação e Semiótica e mestre em Literatura e Crítica Literária, ambos pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O romance nossa Teresa - vida e morte de uma santa suicida - ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura 2015 - categoria melhor romance de 2015 - autor estreante acima de 40 anos e foi finalista do Prêmio Rio de Literatura 2015...apud http://bit.ly/2w8ti4Z

domingo, julho 30, 2017

Mais importante do que o pensamento é o que “dá a pensar” -pegadas do Facebook-

Mais importante do que o pensamento é o que “dá a pensar”;
mais importante do que o filósofo é o poeta".
(Deleuze)

Elton Luiz Leite de Souza 
“Philo” significa tanto “amor” como “amizade”. Assim, a filosofia não é prática apenas intelectual, teórica (tampouco o pensar é exclusividade do filósofo). E “sophia”, por sua vez, não significa o mesmo que “razão”. “Sofia”, inclusive, é um nome, um singular nome, que pode expressar a mulher, ou o que no homem for devir-feminino. Mas “Razão” é um padrão masculino, “falocrático”.

Para Deleuze, a filosofia não é somente Conceito, ela também é Afeto. Espinosa, libertariamente, identifica o pensar à Alegria. Outros, como Kierkegaard, Heidegger e Sartre, dizem que pensar é fazer frente à Angústia. Nunca, absolutamente nunca, o pensar pode nascer do ódio, da covardia, da intolerância ou da mera ostentação de conhecimentos acadêmicos. Ao contrário, o pensar talvez seja um esforço para se tentar vencer essas “sombras”, como diria Jung, ou essas “servidões”, pessoais ou coletivas, conforme diagnosticou Espinosa. O pensar é isso ou então não é nada...E é antes de tudo naquele que pensa que a vitória deve anunciar-se primeiro. Não para colocá-lo num pódio acima dos outros, mas para fazê-lo cultivar ouvidos para ouvir aquela lição simples e modesta, sempre atual e nada livresca, de Espinosa: "não zombe, não lamente: compreenda. Apoiado na compreensão, aja."

terça-feira, julho 25, 2017

A fruta Gogoia

A Canção como vibração de um fruto maduro: Fruta Gogoia

                                            fonte :http://bit.ly/2eIvzj5

                                   fonte :http://bit.ly/2eIvzj5
A canção como vibração de um fruto maduro: Fruta Gogoia,

Cantar é saber dizer linguagens, é legitimar a música, a letra, é aumentar o ganho sonoro com a interpretação que se faz. Isso ocorreu com o CD (com 18 faixas) e show “Fruta Gogoia”, com Jussara Silveira e Renato Braz.
Para aumentar a dimensão do fato, o show no Sesc Vila Mariana, na última sexta feira 08.07, estrondou a cena e o público aplaudiu de pé inúmeras vezes.

O álibi foi a homenagem a Gal Costa, 50 anos de carreira, em seu repertório ao longo de décadas. Mas a escolha é que foi esculpir em ferro: difícil, mas acertadíssima. Fizeram  parte  assim  compositores que vão de Tom Jobim a Caetano Veloso, passando por Dorival Caymmi, Jards Macalé, Chico Buarque, Luiz Melodia. 


O SESC  teve a honra de agasalhar este projeto que marcará sua carreira, já longa de grandes produtos culturais. Danilo Miranda estava presente na estreia, no auditório, e não media fogo nos aplausos, junto com outros convidados.

Luiz Nogueira, produtor cultural e musical, teve a audácia de qualidade de se inspirar com perfume da flor de Gal Costa e cometeu seguidos audácias: ao juntar Renato Braz , Jussara Freire e músicos estonteantes, afora o inesquecível arranjo de Dori Caymmi.
 

Apresentam-se entre outras músicas “Estrada do Sol”, de Tom Jobim e Dolores Duran; “Vapor Barato”, de Jards Macalé e Waly Salomão; “Folhetim”, de Chico Buarque; “Volta”, de Lupicínio Rodrigues; “Pérola Negra”, de Luiz Melodia; “Sorte”, de Celso Fonseca e Ronaldo Bastos; “Só Louco”, de Dorival Caymmi. Também não ficaram de fora da homenagem “Modinha para Gabriela” e, claro, “Fruta gogoia”.

Renato faz um dupla perfeita incorrigível com Jussara, que, por sua vez, canta com o corpo todo e rearranja o corpo e o vestido com suas mãos que regem por inteiro as canções de modo a dar um outro tom à música. Ela rege muito bem com seus dedos como se violasse a melodia com e no corpo, que também vibra.

Ela é uma cantora de extremo bom gosto e sem audácia de querer ser insuperável e, assim, torna-se. E, mais, faz brilhar estalos da sua loucura de intérprete. Sua simplicidade é o segredo de seu tônus, que ultrapassa ditames do é que ser uma a cantora: ela é a própria fruta gogoia, é uma moça, é uma joia!

Ele, Renato, na sua forma de estar em cena, passa a tranquilidade dos que tem sede de cantar se encontrado consigo ao vozeirar as canções qual uma viola do mato afinada junto às frutas, as canções. Assim seu violão e sua voz assaltam-nos de emoção e poesia soberba.

O repertório não tem falha, é um repaginação da música brasileira, feito com um cuidado de quem sabe ouvir e redizer.

Os  arranjos tiveram a batuta doce e clássica de Dori Caymmi que tanto já arranjou  para Gal Costa, mas todos os arranjos pensados para as canções do disco traduzem a elegância das composições, chamando um time de músicos conceituados para executar suas faixas. Além de  Dori, que toca violão – no disco – em algumas das faixas; Itamar Assiere, no piano; Celso de Almeida, na bateria; Teco Cardoso, nos sopros; Swami Júnior, no violão 7 cordas; Sizão Machado, no baixo; Bré Rosário, na percussão; e Toninho Ferragutti irrepreensível e deslumbrante no acordeom. Toninho é responsável também pelo arranjo da canção que dá título ao disco. Além disso, Mário Gil faz a produção musical e o violão na faixa “Meu bem, meu mal”.

Algumas canções são acompanhadas por um octeto de sopros, com a nata dos músicos de sua vertente. Outras por um quarteto de cellos ou um conjuntos de cordas. Neste caso, a arregimentação ficou nas mãos do maestro Claudio Cruz, fantástico.

Na estrutura visual, caso do show, disco e no design de imagens de Regina Silveira, que veio de modo mais público mostrar sua raça, seu verniz de extrema beleza estética e que canta com o som. (Cenário: E programação visual do Cd(Fauna Brasiliensis, 2017. Regina Silveira.Criação: Estúdio Regina SilveiraAnimação: StudioIntro. )

"Eu vi o tempo brincando ao redor da voz latejando música. Por isso essa força estranha..."

Isso é que resumiria o disco e o show



*Disponível para  compra
Lojas do Sesc e em breve na Livraria Cultura

ELKE MARAVILHA X P CESAR PEREIO

ELKE SEMPRE ELKE! UM SER ILUMIINADO QUE PASSOU POR NOSSA GALÁXIA SUA BIOGRAFIA PELO CHICO FELIPETTI DEIXA A DESEJAR,BREVE COMENTAREMOS. TRIS...