sexta-feira, janeiro 24, 2014
NATAL SEM TÍTULO Selma Vasconcelos
NATAL SEM TÍTULO
a cor vermelha da esperança
de tanto sangue verde derramado
por entre papeis, papelões, pacotes
todos vazios
ávidas retinas de desejos incontidos
rastream a solidão inutil
da cor redentora do amor entre os homens
sexta-feira, setembro 20, 2013
Samarone Lima CE
Saio à procura de memórias, palavras,
Murmúrios.
Encontro apenas escadas, corredores,
Maçanetas geladas
De lugares que nunca vi.
De nada adianta
Esta busca frenética:
Tudo está no subsolo.
O esquecimento passa, arando.
O esquecimento anda com uma sacola
Cheia de outras sementes
(é aleatório em seus costumes. Ama e esquece. Ama e malquer. Não ama e diz Amor).
Melhor não buscar, Samarone.
Aquieta-te.
Amordaça teu desejo de alcançar
O que já nem sombra é.
Nunca foi.
Deixa a memória adormeça.
Que se proteja
Como as vítimas do frio
Apenas se tocando
Em gestos impulsivos
Em silêncio.
Apenas se tocando
Se aquecendo.
Apenas morrendo.
sábado, julho 06, 2013
Katia Borges
Minha avó era cega.
Dela, herdei a capacidade de ver sem usar os olhos.
E a paixão
por uns sambas antigos.
Partido alto, dona Ivone Lara.
Minha avó era alta.
Os cabelos muito lisos e compridos
envolviam a cintura.
Eram penteados com cuidado, todas as tardes, e presos em um coque.
Os vestidos, de tecido barato,
quase cobriam os pés.
Minha avó contava histórias de assombrar,
ensinava a amar certas canções
e fazia predições todo final de ano.
Eu fugia com medo do futuro, e me escondia no quarto.
O presente me bastava com seus fantasmas
e as notícias do mundo no Fantástico.
Minha avó gostava de beber aperitivos,
de mascar fumo e de me ouvir cantar
uma música de um português chamado Hermes Aquino.
Poucos se lembram dele.
Poucos se lembram dela.
Poucos se lembrarão de mim.
Minha avó era cega.
Dela, herdei a capacidade de ver sem usar os olhos
Katia Borges Salvador
sábado, junho 22, 2013
O tempo Paulovas
Meu pai tinha razão
os marcadores- do tempo- não são de papel, pena ou pétalas,
são tua pele na tua tessitura desvalida
Palavra Muda Paulovas
A palavra é inerte
não ouve nao vê
cega como surdos e mudos,
longínqua
e desvalida.
Os assoletrantes, como disse a poeta, são crueldade
O Poema
I
Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontado ao coração do homem
falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta
e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme
II
Piso do poema
chão de areia
Digo na maneira
mais crua e mais
intensa
de medir o poema
pela medida inteira
o poema em milímetro
de madeira
ou apodrece o poema
ou se alteia
ou se despedaça
a mão ateia
ou cinco seis astros
se percorre
antes que o deserto
mate a fome
.................................................................................................
Luiza Neto Jorge
Terra Imóvel
Poesia
organização e prefácio de
Fernando Cabral Martins
Assírio & Alvim
2ª edição
2001
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