sexta-feira, fevereiro 10, 2017

Entrevista | Leyla Perrone-Moisés A literatura em perigo by Revista Cândido

http://www.candido.bpp.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=1223

Em um primeiro momento, Mutações da literatura no século XXI pode soar como um muro de lamentações sobre a irrelevância da literatura no mundo atual. A começar por uma falta de consenso sobre o que é literatura — realçada logo na apresentação do livro —, a professora e crítica Leyla Perrone-Moisés traz à tona uma série de temas pessimistas sobre o momento e a recepção da escrita de ficção: o declínio do prestigio social e cultural da literatura, a perda de importância da matéria nos currículos escolares e universitários e a derrocada da crítica em tempos de internet, entre outros.

Mas a partir da segunda parte do livro, intitulada “A narrativa contemporânea”, Mutações mostra como a chama da literatura se mantém viva por meio da obra de diversos autores de nosso tempo, que não jogaram a toalha mesmo com todas as perspectivas desfavoráveis e as teorias conspiratórias (a do fim do romance tem sido a mais recorrente). Os ensaios trazem análises sobre grandes autores contemporâneos — de Ian McEwan a W.G. Sebald — e temas instigantes, como “Os escritores como personagens de ficção” e “A volta do romanção”.

Professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), Leyla Perrone-Moisés é autora de outros livros de ensaios, como Inútil poesia e Altas literaturas, obras que mesmo escritas por uma acadêmica, passam longe de qualquer hermetismo. Nesta entrevista a autora comenta algumas das questões mais pertinentes de seu mais recente livro, como a influência da internet no cenário literário e subgêneros como a autoficção.


Entre as tantas indagações feitas ao longo de Mutações da literatura no século XXI, talvez a pergunta que possa resumir o livro é: “O homem do nosso tempo, com todas as implicações sociais e de comportamento que estão ocorrendo, ainda precisa da literatura?” Precisa?

Precisa, embora a maioria pense que não. Precisa, justamente para ter um comportamento menos dispersivo e mais reflexivo. Para saber quem é, para entender os outros homens e o que fazemos todos juntos no mundo. No século passado, Sartre escreveu: “O mundo pode passar muito bem sem a literatura. Mas pode passar ainda melhor sem o homem”. Essa advertência tornou-se ainda mais pertinente em nosso século.

No capítulo “A nova teoria do romance”, a senhora diz que o nouveau roman francês, apesar de curto, foi o último movimento a apresentar “propostas teóricas relevantes para a renovação do gênero”. A senhora acredita que depois das vanguardas, ainda há possibilidade de o romance se renovar esteticamente? Os escritores deveriam estar preocupados com isso?

De modo geral, verifica-se atualmente um retorno à forma tradicional que o romance assumiu no século XIX: contar histórias e criar personagens que representem a sociedade contemporânea. Ilustrado com descrições, diálogos e enriquecido com intervenções do narrador. Afinal, essa forma tradicional continua sendo muito poderosa. O cinema e as séries televisivas a têm adotado com grande êxito. Somente alguns poucos escritores, mundo afora, continuam preocupados com a renovação estética da ficção escrita. É o que chamei de “literatura exigente”, destinada a um público restrito. Mas ninguém deve dizer com o quê os escritores devem se preocupar. São eles que fazem a literatura, e felizmente vários deles continuam a honrá-la.

“A visão de conjunto de nosso país não se encontra em nenhum
romance brasileiro. Ela nos foi fornecida, via televisão,
pela Câmara e pelo Senado nas votações de 2016.”


Ainda em relação à renovação do romance, esse seria um dos fatores preponderantes à falta de relevância da literatura nos dias de hoje? Ou seja, acha que de alguma forma o gênero estaria “desgastado” para o leitor?


O que está não apenas desgastado, mas quase abandonado, é o hábito da leitura. Numa sociedade de consumidores, a oferta de informação e entretenimento é enorme, e passa por outros meios que não o livro. A falta de relevância da literatura nos dias de hoje é correlata à falta de reflexão, de crítica e de projeto que caracteriza a sociedade contemporânea. Falta reflexão até mesmo quando se alega a falta de tempo para ler. O que realmente falta é perguntar: aquilo com que ocupamos nosso tempo é realmente valioso? Torna-nos melhores, mais sábios e mais felizes? 

A senhora discorre sobre diversos autores contemporâneos, entre eles dois escritores que são como água e vinho: Enrique Vila-Matas e Michel Houellebecq. O primeiro, apesar da inegável qualidade literária do texto, prega para convertidos, escritores e críticos, com sua ficção voltada para a própria literatura. Já o segundo, parece muito mais preocupado em inserir a literatura no debate político e comportamental de seu tempo, sem abdicar da ficção — muitas vezes em histórias distópicas, como a senhora assinala. Em um momento de crise, não estaria faltando à literatura buscar esse diálogo, que tenta Houellebecq, com a sociedade/leitores?

Com certeza, e por isso Houellebecq é muito mais lido do que Vila-Matas. As obras do primeiro têm sido elogiadas por economistas e sociólogos, como perfeitas descrições da sociedade atual. O problema, a meu ver, é que Houellebecq não é apenas distópico, mas é acrítico. Ele descreve nossa realidade com um olhar indiferente que beira o cinismo. É um observador de grande talento, mas não me parece que ele busque um diálogo com a sociedade, como faziam e fazem outros escritores melhores do que ele: Saramago, Coetzee, Amos Oz, McEwan, para citar apenas alguns.

Sobre a autoficção, a senhora esclarece que esse tipo de texto remete a períodos e autores bastante antigos. Não é novidade, portanto. Mas esse método de narrar não teria sido “turbinado” pelo nosso momento atual, com a valorização da exposição do indivíduo, das redes sociais, etc? Mesmo autores como Karl Ove Knausgård, bastante elogiado pela senhora, não teriam angariado leitores sedentos pela vida (real) alheia?

É verdade que o individualismo e o narcisismo contemporâneos, alimentados pelas redes sociais, favoreceram a explosão de autoficções. Mas querer saber o que as pessoas comem e com quem transam é muito diferente do que querer saber como elas vivem seus problemas, como se sentem nos momentos de solidão, o que pensam. Há autoficções irrelevantes como selfies, e há outras que são valiosas para os leitores que buscam, na vida alheia, inspirações para suas próprias vidas.

O desaparecimento da crítica de livros (ou sua diminuição drástica) nos jornais e a abordagem cultural praticada na internet (com suas listas e textos pouco reflexivos) dão a impressão de que, em se tratando de cultura e literatura, estamos regredindo, ou emburrecendo. Qual a sua percepção?

O desaparecimento da crítica está diretamente ligado com a perda de importância dos livros de ficção e de poesia na mídia. A literatura, hoje, tem um lugar muito restrito naquilo que atualmente se chama de “cultura” e que é sinônimo de entretenimento. Não sei se é emburrecimento, mas é certamente a perda de um poderoso estímulo aos neurônios, tornados preguiçosos pelo uso exclusivo dos meios eletrônicos.

“O individualismo e o narcisismo contemporâneos,
alimentados pelas redes sociais,
favoreceram a explosão de autoficções.”


Diante do panorama atual da crítica, qual é o melhor caminho para um escritor jovem ser percebido?

É muito difícil, para um escritor jovem, ingressar no circuito da edição e da publicidade. Pelo contrário, é muito fácil para um jovem qualquer se tornar “escritor”. Se conseguir muitos seguidores na Web, pode logo publicar um livro ou vários. No ano passado, vi uma fila de centenas de pessoas à espera da abertura de uma livraria de shopping, para comprar o livro de uma garota que posta vídeos no YouTube. Uma fila de dar inveja a qualquer escritor literário. O escritor jovem que pratica uma escrita de qualidade tem de ser paciente. Deve enviar seu livro para editoras que tenham catálogos compatíveis com seu trabalho e não desanimar com as respostas. Se sua obra for realmente boa, mais cedo ou mais tarde acabará sendo descoberta.

Recentemente na França se veiculou uma campanha publicitária que mos trava a baixa remuneração dos escritores de literatura. Os autores posam com determinados produtos (como um cafezinho ou um par de óculos) e uma legenda informa quantos livros é preciso vender para adquirir os objetos. A crise da literatura é mundial, e não apenas em países pouco cultos como o Brasil?

A crise da literatura é mundial. A França, que durante séculos teve a cultura como sua maior riqueza, sofre a mesma desvalorização da literatura no ensino básico e no consumo. Há um programa de entretenimento na TV5 Monde que se chama “Questions pour um champion” e dá vultosos prêmios em dinheiro para quem responder o maior número de perguntas de cultura geral. O nível das perguntas é alto, e se fosse no Brasil não encontraria concorrentes (por isso nem existe). Como assisto a esse programa há anos, verifico que o tema “literatura” encontra cada vez menos pessoas informadas. Perde de longe para os temas “geografia”, “esporte”, “cinema” e “gastronomia”. Se um país como a França abandona progressivamente sua memória cultural, o que dizer do nosso, que nunca teve de fato essa memória?

Em determinado momento de Mutações, a senhora faz uma defesa do meio acadêmico em relação à critica que se faz ao ensino da literatura (tanto na universidade quanto na escola). A senhora escreve que não é possível estudar literatura sem passar pelos textos clássicos. Um ponto que costuma gerar divergência, com muitos profissionais defendendo o uso de autores mais contemporâneos em sala de aula. O ideal não seria um ponto de equilíbrio entre esses dois pensamentos?

Para estudar literatura, é necessário partir dos clássicos. O mesmo acontece no campo científico. Isaac Newton dizia: “Se vi mais longe foi por estar sobre ombros de gigantes”. Os professores de literatura podem e devem propor textos contemporâneos em suas aulas, pois sua temática é mais próxima da vivência dos alunos. Mas o bom professor, assim como o bom escritor contemporâneo, tem de conhecer os “gigantes” da história literária, porque estes não apenas criaram as bases da literatura moderna e contemporânea, mas são sempre atuais quanto às grandes questões humanas.


Uma de suas críticas diz respeito ao termo “pós-moderno”, que em relação à literatura agruparia características que sempre estiveram presentes na ficção, como a metaliguagem (Tristam Shandy), a paródia (Dom Quixote) e a intertextualidade (A divina comédia). A senhora demonstra como o autor contemporâneo se utiliza dessas heranças do passado e as diluiu no presente, utilizando para isso o termo “literatura tardia”. Poderia explicar esse conceito?

Não me lembro de ter usado esse termo. Usei, sim, o termo “modernidade tardia” para qualificar nossa época. O que caracteriza a literatura na modernidade tardia é que ela perdeu importância como instituição, como prática e como consumo. Atualmente, considera-se “literatura” qualquer escrito ficcional ou poético. E no enorme volume de publicações, muito pouco merece essa classificação. Justamente por ignorância dos “gigantes”, perdeu-se o pudor de publicar, e publica-se qualquer coisa. Portanto, poderíamos falar em “literatura tardia” para qualificar essa massa de escritos supostamente literários. Mas a boa literatura nunca é tardia, pelo contrário, ela é oportuna porque resiste ao contexto histórico e social adverso, apontando suas mazelas e mantendo a linguagem em bom estado, contra as simplificações, os clichês e os estereótipos.

Apesar do tom muitas vezes pessimista do livro (de fim de feira), a senhora escreve que “a literatura é um dos poucos exercícios de liberdade que nos restam”. Por quê?

Porque a literatura só pode ser praticada plenamente em sociedades democráticas. Mesmo em sociedades de períodos históricos totalitários e autoritários, os escritores sempre se sentiram livres para dizer o que tinham a dizer, sob pena de censura ou de prisão. Em nossa época, quando a maioria dos países se diz democrata, o escritor sofre a repressão não declarada de grandes poderes totalitários: o dinheiro, a mídia, a moda, o senso comum, a opinião corrente, as redes sociais, o moralismo etc. Mas em seu texto ele é livre para pensar, exprimir-se e imaginar.

Há também um capítulo sobre a volta do “romanção”, em que cita três autores americanos contemporâneos: Jonathan Franzen, David Foster Wallace e Garth Risk Hallberg. No Brasil, esse tipo de livro, que pretende apresentar um “painel” da sociedade, nunca pegou (apesar de algumas exceções). Saberia explicar o motivo?

O motivo é que não existe “a sociedade brasileira”. O Brasil é um território muito vasto e muito desigual em todos os seus aspectos, não cabe num “painel”. A nação norte-americana também é vasta e variada, mas ela tem uma liga social, registrada numa constituição imutável e numa imagem compartilhada do próprio país como livre, próspero e poderoso. Os romancistas norte-americanos que citei são, em graus diversos, críticos dessa auto -imagem, mas conseguem ver o conjunto e os principais problemas. Nos EUA há uma tradição do “grande romance americano”, de John dos Passos até os nossos dias. Diferentemente, ninguém em sã consciência ousaria escrever um romanção panorâmico do Brasil. O mais próximo disso que tivemos foi Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, que mesmo assim é regional. A visão de conjunto de nosso país não se encontra em nenhum romance brasileiro. Ela nos foi fornecida, via televisão, pela Câmara e pelo Senado nas votações de 2016.

Para terminar, quais foram as leituras mais interessantes, de autores brasileiros, que a senhora fez no último ano?

Dos livros brasileiros que li em 2016, os que me pareceram mais interessantes foram: O tribunal de quintafeira, de Michel Laub; Histórias naturais, de Marcílio França Castro; A vista particular, de Ricardo Lísias; A tradutora, de Cristovão Tezza.

segunda-feira, dezembro 19, 2016

Poesia pode ser que seja fazer outro mundo: uma homenagem ao centenário do poeta Manoel de Barros

                                   ( foto arquivo da Família, Manoel de Barros)
        
                                                                           Por Elton Luiz Leite de Souza[1]
                                     

- O fazer do poeta
"Poesia pode ser que seja fazer outro mundo" é um verso do próprio Manoel[2].  Mil sentidos podem ser extraídos dele, pois inesgotável é sua riqueza. Acreditamos que a ênfase deve ser colocada no “fazer”, no produzir, e não no mundo enquanto produto ou coisa pronta, tangível, reconhecível, etiquetável, prestes a virar propriedade de um dono. Sempre haverá mundo para a poesia fazer, a poesia mais necessária é prática de fazer outros mundos: mundos políticos, psíquicos, oníricos, semióticos, desejantes, enfim, mundos por fazer, sempre múltiplos. É desse fazer que o poeta deseja ser o dono, não do mundo: "quem inventa é dono daquilo que inventa, quem descreve não é dono daquilo que descreve"[3], diz o poeta.
Se estivesse vivo, Manoel de Barros completaria 100 anos em 2016.  Mais precisamente, no dia 19 de dezembro. Esse número tão expressivo parece contrastar com a imagem que o poeta imprimiu à sua obra. Não são as datas e a passagem do tempo que o interessam, mas “as origens que renovam”[4].Na ponta do meu lápis, diz o poeta, “há apenas nascimento”[5].Quanto mais o tempo passa, mais a obra de Manoel de Barros parece nos encantar como seus inauguramentos, seus exercícios de ser criança : “Quem é quando criança a natureza nos mistura com suas árvores, com as suas águas , com o olho azul do céu. Por tudo isso que eu não gostasse de botar data na existência”[6].
Inspirados pela característica plural da poética de Manoel de Barros quisemos fazer um evento-homenagem também plural, transdisciplinar, reunindo pesquisadores, poetas, artistas, enfim, profissionais que encontraram na obra do poeta um caminho para a invenção de ideias: na música, na dança, no pensamento, na arte , enfim, na vida.
É de se notar, hoje, a variedade de campos envolvidos nas produções acadêmicas que tomam o poeta como tema. Além da Teoria Literária, há estudos em Filosofia, Dança, Geografia, Psicologia, Pedagogia, Museologia, Teatro....Essa pluralidade expressa a riqueza de uma poética que ainda se oferece por descobrir, exigindo um rico trabalho de diálogo interdisciplinar em sua hermenêutica.
O evento desejou contribuir para a divulgação de um pensador originalíssimo de nossa cultura, com influência crescente nas mais diversas áreas da vida brasileira. Apesar do reconhecimento midiático, a poética de Manoel ainda é relativamente pouco conhecida e estudada, e falar dela também é, sem dúvida, pensar nossa sociedade, nossa linguagem e as formas plurais mediante as quais produzimos conhecimento. Essa é a originalidade do poeta: uma simplicidade sem pose, uma simplicidade múltipla, pois toda autêntica simplicidade é vária, com-plexa: múltiplas coisas estão dobradas e implicadas nelas.

- A simplicidade de Manoel
Sim-plex: “sem dobra”, literalmente. Com-plexo: “com muitas dobras”. Ex-pli-car: “trazer para fora da dobra, desdobrar”. Em latim, dobra se diz “pli”. Um ser sem dobra não é exatamente algo reto. O autêntico simples sempre permanece ligado ao complexo, tal como o fio de Ariadne que , desdobrado, permanece  unido à complicatio de seu novelo. E nesse novelo estão implicadas todas as narrativas, estão implicadas todas as narrativas que salvam, que criam percurso e inauguram linhas de fuga. A linha reta, ao contrário, não tem novelo: “a expressão reta não sonha”[7]. Uma linha, dizem, é feita de pontos. Mas o ponto é o falso simples, um simples meramente matemático. No começo não está o simples: o simples somente surge   como o produto cujo agente o desdobra de uma complicatio, de algo complexo, como um “afloramento de falas”[8]. Somente encontramos o simples após uma explicação, e não antes dela. Tampouco existe o complexo sem o simples, e o simples sem o complexo.
Singularizar é intensificar. Cada um explica o que lhe está implicado de acordo com a potência que tem. Toda explicação potente é uma forma em rascunho que explica uma potência que nunca é puramente formal. Uma ideia, não importa qual, é uma expressão: ela implica algo e dá a possibilidade de ser explicada por aquele que a  vive. E aquele que a vive também explica a si mesmo naquilo que ele explica e vive.
Os estudiosos da vida nos dizem que aquilo que chamamos de “órgãos” são, na verdade, dobras. O cérebro, por exemplo, é dobra sobre dobra sobre dobra...O cérebro é todo dobrado sobre si mesmo. O cérebro é uma complicatio, porém simples é a ideia que faz pensar e ensina, educa. O pulmão também é uma dobra: dobra essa feita de dobras. Quando se desdobra fisicamente um pulmão, ele vira uma superfície do tamanho de uma quadra de tênis. Assim, no horizonte  de uma dobra não está a altura nem a profundidade, tampouco o ponto; no horizonte de uma dobra está uma superfície. Não o superficial, mas a superfície. A superfície não é o raso por oposição ao profundo, ela também não é o baixo em contraste com o alto das alturas metafísicas. A superfície é a horizontalidade enquanto espaço aberto de conexões e agenciamentos.
 Não raro, há alturas superficiais, bem como profundidades também superficiais. Na origem da dobra não está a linha ou o ponto, está a superfície. Em nós, os afetos estão dobrados; quando os desdobramos, vem expressá-los a superfície do rosto. A onda do mar, por exemplo, também é uma dobra: se esticarmos uma onda descobrimos que ela nasce da superfície do mar. Os simples não são profundos, tampouco ascendem a píncaros. Os simples habitam as superfícies enquanto espaço de travessia e andarilhagem. Os simples habitam a Terra, eles celestam o chão. Os simples são andarilhos que “abastecem de pernas as distâncias”[9].
Os poemas de Manoel , seus livros, são dobras. Em cada poema se encontra a poética inteira, virtualmente dobrada, complicada. Em Manoel não há linearidade, há um desdobrar da “origem que renova”. A origem é a infância que se encontra dobrada no poeta, a qual o poeta desdobra na ponta de seu lápis, bem como no sorriso brincativo sempre a colorir seu rosto idoso.
O poema é uma dobra  porque nele está implicado o que está dobrado junto com tudo. O poema é uma dobra cheia de dobras. Lê-lo é desdobrá-lo, é explicá-lo. Explicar o complexo é devir simples.  Explicamos um poema de acordo com a potência que temos. Porém o que está implicado no poema tem sua própria potência, que pode sempre aumentar a nossa, desde que desejemos devir simples , fazendo viver em nós um sentido , uma questão, que nunca se esgota em uma explicação única, analítica. Ler Manoel é desdobrar o que nele está implicado, e o que está implicado nele está implicado em nós, pois não se trata de letras, mas de ideias, de ideias expressivas. Poetas assim têm uma potência de desdobramento infinita, pois o infinito está implicado nele. E o infinito não começa e nem termina, o infinito possui apenas meio, como a “estrada que põe sentido em mim”[10]. Tais poetas não têm exatamente origem, tampouco precisam “do fim para chegar”[11]. Eles têm horizonte: é de um deslimite que eles nasceram, é por isso que eles nos horizontam.
 Os livros de Manoel, sua poesia, são expressões dessa simplicidade conquistada pelo poeta. Se pudéssemos desdobrá-los, à maneira como se faz com as dobras de um pulmão, teríamos um plano do tamanho da terra, enquanto plano de imanência. Não é um tamanho físico mensurável por réguas, é um tamanho em encantamento, em poder de encantar, o qual não se pode “passar régua”. Na poética de Manoel está implicada a mesma potência que se acha implicada em cada coisa que vive. É em nossa alma unida ao corpo que essa potência se desdobra e se explica, nos explicando, nos singularizando, empoemando-nos.

- Manoel: pop’filósofo
O filósofo Gilles Deleuze intitula pop’filosofia a relação entre o pensar e o sentir, entre a ideia e a sensação, entre o conceito e a imagem. “Pop” como raiz ou prefixo de popular. O popular não é o massificado, o popular não é o que custa barato. Ao contrário, custa muito o popular: custa não em moeda ou capital, mas em modéstia e gosto. O popular não é o que vende muito: o popular é o que não se deixa vender, seja pelo mercado seja pela potesta do Estado. O popular não se opõe ao erudito. O popular não se confunde com classe ou gênero. O popular não é a classe  C, D ou E. O popular é multiplicidade . Povo ao mesmo tempo nobre e menor, como a cartola do Angenor, como o sax de Pixinguinha, como o lápis de Manoel. Quem fala a partir de uma multiplicidade produz um “afloramento de falas”, pois é aflorando em múltiplas falas que a poética de Manoel se torna um agente coletivo de enunciação: “escreve-se em função de um povo por vir e que ainda não tem linguagem”[12].
Na homenagem pretendida simples, por isso com múltiplas e diferentes vozes, orientou-nos sobretudo as peraltagens brincativas  do próprio Manoel presentes no poema Retrato do artista quando coisa: “Esse engenho, pra bem funcionar, havia que estar/ ligado por uma correia aos ventos da manhã./Funcionava ao sabor dos ventos./ Imitava uma instalação./ Mas penso que seja um desobjeto artístico.” Manoel é um desobjeto acadêmico: não há como falar dele estando de fora, “sem contágio”; é preciso se instalar nele e deixar que ele se instale em nós, desabrindo-nos , explicando-nos: “a palavra abriu o roupão para mim, ela quer que eu a seja”[13], afirma o poeta (já se instalando naquilo que se instala nele).





[1] Prof. da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, autor do livro Manoel de Barros: a poética do deslimite, Rio de Janeiro: 7letras, 2010.
[2] Encontros: Manoel de Barros (org. Adalberto Müller), Rio de Janeiro: Azougue, 2010, p. 68.
[3] Entrevista concedida ao jornalista José Castello e publicada no site Jornal de Poesia, em 30/05/2005.
[4] Poema “Aprendimentos” , Memórias inventadas – as infâncias de Manoel de Barros. São Paulo: Editora Planeta, 2010, p. 109.
[5] Encontros: Manoel de Barros, p. 135.                                                                                       
[6] Manoel de Barros, Memórias inventadas : as infâncias de Manoel de Barros, p. 113.                       
[7] “As lições de R.Q.”, Livro sobre nada.
[8] “Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada”,  O guardador de águas, p. 62.
[9] Livro de pré-coisas, p. 47.
[10] “Caso de amor”, Memórias inventadas.
[11] Livro sobre nada, p. 71.
[12] DELEUZE, G. Conversações, Editora 34, p. 179.

[13] Livro sobre nada, p. 70.

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