Não fales nada,
A palavra não diz, é louça quebrada, não mais espouca,
Não gira,não recola
25.05.24 PAULO CAJA
Não fales nada,
A palavra não diz, é louça quebrada, não mais espouca,
Não gira,não recola
25.05.24 PAULO CAJA
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** MEUS AGRADECIMENTOS ESPECIAIS AO DR. ALDO AMBRÓZIO QUE ORGANIZOU JUNTO AO DR. FRANCISCO E O PRIMEIRO ARRENDONDOU A DIAGRAMAÇÃO EDITORIAL NO FORMARTO KINDLE- E FEZ ALGUMAS EDITORIAS POR TÍTULOS, OBRIGADO DE CORAÇÃO.
Assis Lima (*)
Ao ler os originais deste novo livro do poeta Paulo Vasconcelos, deparei-me em quatro momentos com o verbo “assoletrar”, que me chamou a atenção por coincidir com uma linha que vislumbrei, recentemente, no trabalho com a palavra. Em Paulo Vasconcelos, o fazer poético é antes de tudo uma soletração da falta.
Corpo, Mar e Faca têm como temática o potencial diálogo do poeta consigo mesmo e com o outro, numa relação de alteridade ora conflitiva, ora em “fusão”, e com um Outro, que não responde, uma instância maior diante da qual se desenha (não sem raiva e fúria) silêncio e solidão.
Há o sentimento subjacente de devastação ou da inutilidade de tudo, até mesmo de Deus. Crueza e aspereza, corpo de desejo ardendo em intensidade selvagem e visceral, e um repúdio por vezes expresso com as imprecações de quem conhece o veneno destilado da boca da lacraia. Cenário humano cruel, descrito com pinceladas fortes: “feras em delírio de humanidades”. Um Augusto dos Anjos, em estilo contido, pulsa aqui. Um anjo pelo avesso, talvez, e com certeza ferido em algum momento pelo excesso de luz. Um anjo a quem coube um corpo que se soletra como “corpo de palavras esfaqueadas!”
Este corpo
é terra alumiada em sangue
como pedra diluída.
Há uma faca cortante atravessada entre o corpo de gozo ou corpo de dor e o mar, promessa de expansão. É possível sentir ou pressentir um “mar à vista”, que logo se revela ausente, distante e não oceânico, mesmo assim um mar misterioso.
O mar é o mar como um açude,
ou lago vazio,
o mar é poema que inventaste
para a envergadura do que não sabes nem alcanças.
O mar é o distante
em volume e peso,
como a semente tua
que nunca saberás onde foi perdida
e ou deixada.
O mar é negro e louro,
tem cheiros de ti do teu sal
que todo os dias deixas
no teu percurso que não acompanhas.
O mar és tu também.
“O sertão está nos mares e os mares são áridos, secos e cegos”. A poesia em Paulo Vasconcelos tem elementos telúricos, de uma terra que é viço e paixão, mas também pandêmica, buraco negro e luto. E para além da terra o céu é conclamado, mas na falta absoluta de resposta a natureza o acode e o poeta se esbalda de água. Se o batismo não vem pelo fogo, os pregos do castigo não sinalizam redenção e só a água o redime.
Deus não veio a mim,
e fui a oráculos todos e reclamei,
mas os ventos solaparam minhas preces
e mostrou-me ajoelhado sobre pregos que não sabia,
a tempestade veio e aliviou-me das chagas,
brindei com a língua os solapos das águas passantes das chuvas
e confundi-me com elas,
a água sou eu.
O universo poético do autor não é brincadeira, não está para o riso, antes transita em angústias fronteiriças. Revela-se, ainda, uma forte sensualidade, rasgando a alma e marcando a pele, sem restrições e sem medos nem peias.
Não me dê o gênero,
dê-me o gozo.
Nisto sou fatal.
Palavra para que?
Nos poemas mais recentes, sobretudo, a temática da morte ganha sensível peso, com um toque de despedida.
Não desdenhes do meu rosto,
pois este, posto sobre a cama, é outro.
Não apresses minha imagem.
Sou visagem em viagem ao nada.
Uma poesia que, na trilha de Aldir Blanc, abre-se ao tempo, sendo esse tempo um tempo de quem chora, de quem não zomba da dor porque a dor não passa e tem na palavra um dardo, uma faca, mas também uma fé, que se esconde entre o simulacro da linguagem e da busca poética como grito e anseio (pelo avesso) de revelação.
(*) Assis Lima é cearense, do Crato. Psiquiatra, poeta e pesquisador em cultura popular. Mestre em Psicologia Social (USP). Autor do livro Conto popular e comunidade narrativa (Prêmio Sílvio Romero – Funarte). Organizou o livro Cartas da Juventude – crônica de época, recortes autoetnográficos (1968-1977). Autor de Poemas Arcanos, Marco Misterioso e Chão e Sonho, Terras de aluvião, Poemas de riso e siso, O código íntimo das coisas e Breviário.
Como um meteoro luzente vestias as cores quentes , acalmastes com as águas dos rios e as baronesas passantes
Eras um sol nascente como as rapaduras e aguadentes
Raios de sol peneraram sobre ti , como os cajás, jambos , mangas e cajus de tua terra
Fostes amiga entre o prato a mesa ,o saber e a equidade ética
Soubeste dar o riso como o pão que liberta com teu riso marcado de sabor de humano
Agora segue para o além de ti, libertas da carcaça que te envolvia
Amiga, Amiga, não nos deixastes,estás conosco e no teu sol revivem flores e frutos
Não fotografei tua derradeira face, o sol também não;
Vai amiga, não te mirarei com a máscara que a vida te decalcou por último.
Assim:
A tentativa de espanar a dor é petrea
Ainda estás aqui!
PAULO VASCONCELOS
AINDA POR CAMILO SOARES- FILHO DE NANCI LOURENÇO SOARES:
Aqui destaco o livro do poeta Jose Edmilson Rodrigues - ENSAIO DE TEMPO, em crítica e ou apresentação da poeta Selma Vasconcelos. Sua apreciação é farta e apura traços do poeta José Edmilson, resultando num quase ensaio, face seu tricotear por variáves diversas da Literatura e campos epistêmicos vizinhos,isto é uma atîtude bem ladrilhada que uma boa crítica tece ao aceitat esta tarefa.
Paulo Cordeiro Vasco
A propósito do livro Ensaio de Tempo de Jose Edmilson Rodrigues
Selma Vasconcelos*
A inexatidão de definir ou conceituar o que seja o tempo, talvez explique a preocupação
recorrente de pensadores , filósofos e poetas em torno desse “ motor “ contínuo que aprisiona
nossas vidas. Para nós, ocidentais, que adotamos o calendário gregoriano, a passagem do
tempo é dimensionada e baseada na posição da terra em relação ao sol. Dividem-se os anos
em 365 dias o que corresponde ao tempo em que a terra completa uma orbita ao redor do
astro rei.
As culturas ancestrais, como as indígenas registram o tempo de acordo com fenômenos
naturais; a cultura islâmica adota o calendário lunar , ou seja, considera um ciclo lunar
completo que dura 29 dias , resultando em anos de 354 dias .Portanto os calendários refletem
as necessidades de organização social de cada cultura em especial.
Mas o que nos interessa nesse artigo é demonstrar a preocupação humana com esse ser
fluido, impalpável , que nos acompanha e nos marca ao longo de nossa trajetória passageira
pela terra. Os poetas, particularmente , não raro, trazem à luz essa inquietação .
Como bem referiu Edmilson em seu poema João e outros em si, dedicado a João Cabral de
Melo Neto “ João é íntimo e não intimista”. O autor vai adiante numa das melhores definições
do poeta pernambucano: Carpinteiro das palavras. Dessa carpintaria de João Cabral ,
poderíamos trazer, por exemplo ,o poema Relógio. A estrutura do poema faz coerência com a
estrutura de um relógio, desde que é todo regido pelo número quatro. São quatro partes ,
cada parte com seis estrofes de quatro versos; idêntica portanto á estrutura de um relógio que
traz em cada uma de suas metades seis números tendo sua circunferência dividida em quatro
quadrantes .
A partir daí o poeta denota sua preocupação com esse quantificador de nossas vidas. Como é
característico à poética cabralina, ele trabalha em seu tear um tecido de metáforas sempre
objetivando chegar a uma imagem mais precisa do objeto que estuda. Inicialmente compara o
tal relógio a uma gaiola, ou seja, um elemento escravizador que aprisiona o tempo e em
decorrência , escraviza o homem. Por outro lado, como toda gaiola, aprisiona um pássaro
cantor ( a gaiola será de pássaro ou pássara/ é alada sua palpitação....) Mais adiante
diferencia esse “ pássaro por ter um compasso “ humana, mas de máquina horizontal e
monótono...simplesmente trabalho, não de mão, sem fadiga e por demais precisa”, e aprisiona
o tempo que é seu combustível . No final do poema o poeta humaniza sua metáfora fazendo
alusão `a outra “máquina” ... outra máquina de dentro ...soando no fundão das veias, e que “
revela vontade própria”, ou seja ,como ele próprio diz “ coração , noutra linguagem”. No caso,
esse mecanismo humanizado é que move os ponteiros até que se esvaia o tempo.
Na verdade ,esse poema é um belo exemplo do que sempre norteou a poética de João Cabral
que à maneira de PENÉLOPE constrói e descontrói o objeto até que se possa desvendá-lo em
continuo exercício de inteligência a duas mãos, autor e leitor.
A poesia de José Edmilson Rodrigues não se faz diferente . A partir do titulo do livro “ Ensaio
de tempo “ o autor denuncia sua inquietação com essa máquina alimentada por outra que é
nosso coração “ a máquina de dentro “ como disse João Cabral.
Vejamos o poema do poeta campinense: Outra vez –ele aponta para o amor antigo que se foi
““na pista do vento / que o tempo marca e apaga”,
Continuando nosso deleite na leitura chegamos ao poema Quando falamos de ontem; aqui o
poeta declara seu espanto diante da passagem do tempo e suas marcas no rosto da mulher
amada; mas recompõe sua figura, a despeito da voracidade do tempo , num exercicio mágico
que só o gênio criador permite , a face procurada “ era ontem como o mesmo sorriso”.
No poema Ensaio de tempo que dá título ao livro, o poeta faz uma alusão clara à dualidade e
temporalidade da vida: “Nós somos a casca do madeiro e o ar que sobre ele resvala”.
Esse poema me remete a outro poeta, o nosso Mário Quintana ,no poema de título quase
idêntico , em versos magistrais:
O TEMPO
...E se me dessem um dia uma outra oportunidade
Eu nem olhava o relógio, seguia sempre em frente
E iria jogando pelo caminho
A casca dourada e inútil das horas
Como disse Antônio Candido a respeito de João Cabral: “não era um poeta em paz”. Repito
essa assertiva a respeito de Jose Edmilson Rodrigues Ele também não é um poeta em paz
,muito embora sua inquietude nos proporcione leituras provocadoras e inteligentes .
Recife, 12/04/2025
*SELMA VASCONCELOS - Paraibana,Professora, médica, escritora. Poeta biógrafa de João Cabral M. Neto. Cronista, crítica do cotidiano..Obras publicadas dentro e fora do país com prêmios nacionais e internacionais